07 outubro, 2017

Recomendações de exercício para pacientes com câncer


Evidências científicas apoiam a prática regular e sistematizada de exercício físico (EF) em pacientes com câncer (CA) e ratificam os seus benefícios; no entanto, ainda falta orientação específica para a tomada de decisão clínica em relação ao modo, frequência, duração e intensidade do EF. Além disso, a complexidade do estado de saúde, histórico clínico e a funcionalidade do paciente com CA dificultam tais recomendações. Como resultado, frequentemente a realização do EF é ignorada no planejamento da terapêutica anticâncer. 

A fim de esclarecer esta situação, uma recém-publicada revisão analisou outras 51 revisões (publicadas entre 2005 e 2017) sobre EF a CA com o objetivo de agregar informações relativas aos benefícios e recomendação do EF. Seus resultados sugerem que a duração e o tipo de EF podem afetar de forma diferente marcadores biológicos e fisiológicos, fatores psicossociais, deficiências funcionais, bem como proporcionar melhor tolerância ao tratamento do CA. 

Cabeçalho da revisão sistemática citada no texto.

Mais especificamente, temos:

Intensidade - maiores benefícios são encontrados quando o EF aeróbio é realizado em intensidade moderada a vigorosa. Estes efeitos são observados tanto durante como após o tratamento. Em geral, intensidades moderadas ou vigorosas resultam em melhorias na aptidão física, incluindo o consumo máximo de oxigênio, força muscular, resistência, funcionalidade, bem como na função imune. Estas intensidades são consideradas seguras se realizadas em ambientes supervisionados.

Estrutura – programas de EF supervisionados produzem maiores benefícios em comparação aos programas de EF não supervisionados. 

Período - A realização de EF é positiva quando inserida em qualquer período da intervenção terapêutica (pré-tratamento, o tratamento ativo e o pós-tratamento). As revisões de EF pré-hospitalares ou pré-cirúrgicos apontam melhorias na adesão ao treinamento, tolerância à terapêutica farmacológica, especificamente à quimioterapia, mitigação do declínio funcional após o início do tratamento, melhorias relacionadas à recuperação funcional pós-tratamento, reduções no período de permanência hospitalar e de complicações pós-operatórias.

Quando iniciado pré ou mesmo durante o tratamento, o EF também pode mitigar o risco de eventos adversos relacionados à contagem sanguínea, como neutropenia e trombocitopenia. 

O EF, mesmo quando inserido durante o tratamento, promove melhoras na função imune, na tolerância à quimioterapia e a seus efeitos colaterais (fadiga, depressão, ansiedade e distúrbios do sono), qualidade de vida e funcionalidade.

Ver tabela abaixo com recomendações específicas de EF

Tabela com recomendações específicas de EF para pacientes com CA. Clique na imagem para ampliá-la (Stout et al. 2017)

Esta revisão também detalha o impacto específico do EF em alguns desfechos que são influenciados pelo tratamento anticâncer, são eles:

Fadiga relacionada ao CA – o EF pode ser considerado a intervenção mais relevante na redução da fadiga em comparação às intervenções farmacêutica e a psicológica isoladamente.

Aptidão física – forte impacto positivo nas medidas de aptidão física, incluindo consumo máximo de oxigênio, tolerância ao exercício aeróbio, potência máxima, força, flexibilidade e várias medidas de aptidão cardiorrespiratória.

Composição corporal – benefício em aumento de massa magra e a fraca evidência para melhora na densidade mineral óssea.

Biomarcadores associados à progressão do CA – melhoras significativas nos perfis de biomarcadores, incluindo fator de crescimento de insulina (IGF) -I e IGF-II, células CD-4, função imune e diminuição de marcadores inflamatórios, tanto durante quanto após o tratamento do CA.

Atesta-se mais uma vez, com resultados desta “revisão das revisões”, que o EF, quando realizado em qualquer momento do tratamento, promove inúmeros benefícios sistêmicos ao paciente com CA, que as intensidades moderadas ou vigorosas potencializam estes resultados e são consideradas seguras. Seus autores concluem que é obrigação dos profissionais da área de saúde recomendar o EF, e que o paciente com CA requer atenção e um plano de EF específico, desenvolvido com base na aptidão inicial, níveis funcionais do indivíduo, efeitos colaterais relacionados ao tratamento e metas pessoais de saúde.

Referência citada: Stout, Nicole L., et al. "A systematic review of exercise systematic reviews in the cancer literature (2005-2017)." PM&R 9.9 (2017): S347-S384.

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Até a próxima...

Rodrigo Ferraz

15 setembro, 2017



Desde os anos 90, inúmeras pesquisas científicas sobre os efeitos da realização regular e sistematizada do exercício físico no câncer e seu tratamento foram publicadas com resultados indiscutíveis. Temos agora um sólido corpo de conhecimento que atesta o exercício como uma ferramenta de intervenção terapêutica no câncer. Logo, o profissional da área da saúde que não oferecer esta possibilidade ao seu paciente, ou está sendo omisso ou, ao menos, está mal informado. 

Para que não ocorram mais negligências e desinformações, chegamos a um momento crucial: organizar este conhecimento a fim de que todos tenham acesso a ele. Além disso, no meio de tantas publicações, é preciso criar critérios para filtrar as boas das não tão boas pesquisas, os resultados milagrosos dos reais, resumindo, a pseudociência da ciência. Para começar, devemos entender o básico: como o exercício atua no organismo do paciente com câncer. Para isso, a fim de simplificá-lo, dividi este processo em três níveis:

Leia o nosso texto “Como o exercício atua no organismo do paciente câncer” da Coluna Paciente em Forma no Portal Oncoguia para saber sobre estes níveis e como eles atuam na melhora da qualidade de vida e aumento da sobrevida no paciente com câncer.

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Boa leitura e até a próoxima...

Rodrigo Ferraz


15 junho, 2017

Dicas de como organizar o treinamento de pacientes com câncer 2 - prescrição


Transformando teoria em prática: como aplicar a Ciência no dia a dia do treinamento de pacientes com câncer.

As dicas desta publicação são de como tornar o treinamento mais individualizado, eficiente e seguro possível. Fatores que devem ser considerados na hora de prescrever os exercícios para pacientes com câncer, são eles:

  • Tipo e estadiamento do câncer.
  • Efeitos colaterais deste câncer no paciente.
  • Terapêutica anticâncer utilizada – organizar as sessões de acordo com a rotina farmacológica.
  • Efeitos colaterais desta terapêutica no paciente.
  • Literatura cientifica – muitos estudos mostram a dosagem mais eficiente e segura dos exercícios na redução dos itens acima (leiam as publicações sobre este assunto em nosso site)
  • Estado físico e emocional – o ajuste individualizado na dosagem deve ser a partir deste fator.
  • Histórico esportivo.
  • Preferências esportivas – para garantir aderência ao treinamento.
  • Expectativas e objetivos – pode ser apenas para melhorar a qualidade de vida, ou até para correr uma maratona.
  • Local de realização dos exercícios – clínica, academia, em casa ou ao ar livre.
  • Equipamentos disponíveis.
  • Disponibilidade de horários para treinar.


Textos completos sobre exercício e câncer em oncofitness.com.

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Rodrigo Ferraz

07 junho, 2017

O exercício protege o coração do paciente com câncer.


Pacientes com câncer (CA) correm maior risco de morbidade e mortalidade relacionadas às doenças cardiovasculares - resultado de um estilo de vida sedentário (por exemplo, redução da atividade física) e da terapia farmacológica. Muitos agentes com ação anticâncer estão associados à toxicidade vascular, mediada principalmente pelos seus efeitos deletérios nas células endoteliais. O endotélio vascular atua na homeostase e na função da circulação sanguínea, modulando a atividade das células dos músculos lisos subjacentes. Desta forma, pacientes com disfunção vascular podem desenvolver danos cardíacos graves e outros efeitos secundários, tais como hipertensão, lesão miocárdica, hemorragia intersticial, isquemia do miocárdio e vasoespasmo coronário. (ver tabela abaixo com os principais componentes medicamentosos utilizados no tratamento antineoplásico e a suas comprovações cardiotóxicas)

Tabela com componentes medicamentosos antineoplásicos e sua cardiotoxicidade. Adaptado de Guertin. P. (2017). Clique na tabela para ampliá-la.
Infelizmente, ainda não existem medicamentos que agem na prevenção ou tratamento destes efeitos cardiotóxicos. Neste sentido, a realização regular e sistematizada de exercícios físicos apresenta-se como uma terapia alternativa e eficaz para aumento do VO2 máximo e melhora da função endotelial em pacientes com CA. Estudo recente demonstrou que o aumento em 3,5 ml/kg/min. no VO2 máx. de pacientes com CA de mama e próstata, promovido por um programa de treinamento físico, diminuiu em 12 e 17% a mortalidade de homens e mulheres, respectivamente. Adicionalmente, também foi encontrado que a melhora em 1% da FMD (flow-mediated dilation) – medida da capacidade de dilatação arterial - provocou redução de até 13% no risco cardiovascular.

Cabeçalho do artigo citado acima - Sua apresentação no 28th International Nursing Research Congress. Clique na imagem para ampliá-la.
Conclui-se então que, os exercícios físicos podem melhorar a função cardiovascular, amenizando os efeitos cardiotóxicos do tratamento anticâncer, com consequente redução da morbidade e mortalidade relacionadas a doenças cardiovasculares em sobreviventes de CA de mama e próstata.

Referências:
  • Beaudry, Rhys I. "Effect of Exercise Training on Vascular Function in Cancer Survivors: A Meta-Analysis." Sigma Theta Tau International's 28th International Nursing Research Congress. STTI, 2017.
  • Guertin, Pierre A. "Cancer Therapy-Induced Cardiotoxicity: Where are We Now?." Cardiology and Cardiovascular Medicine 1.2 (2017): 102-109.


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Até a próxima...
Rodrigo Ferraz

19 maio, 2017

Dicas de como organizar o treinamento de pacientes com câncer - segurança


Transformando teoria em prática: aplicação da Ciência no dia a dia do treinamento físico de pacientes com câncer.

As dicas desta publicação são de como tornar mais segura a realização de exercícios durante e após o tratamento:
  • A liberação à prática esportiva deve ser feita pelo médico responsável.
  • Não praticar exercícios com baixa contagem de glóbulos vermelhos.
  • Evitar se exercitar em locais públicos com contagem de glóbulos brancos baixa.
  • Restrições ou dores articulares causadas pelo tratamento e/ou localização do tumor devem ser considerados na escolha e execução do exercício.
  • Não treinar em dias de ocorrência intensa de vômitos e diarreia.
  • No uso de cateter ou sonda alimentar, evitar modalidades aquáticas, bem como a realização de movimentos que envolvam a região onde a sonda está inserida.
  • Não realizar exercícios nos dias de extrema fadiga.
  • Ajustar a rotina de treinamento com a rotina da terapia sistêmica.

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Rodrigo Ferraz

12 maio, 2017

O treinamento ideal para o paciente com câncer.



Vivemos em um mundo de tecnologias imediatas que nos oferecem respostas rápidas e simples para quase todas as nossas dúvidas, principalmente as de saúde. A internet, por exemplo, nos bombardeia com inúmeras fórmulas de sucesso, metodologias infalíveis, protocolos milagrosos e assim por diante. Infelizmente, na maioria destes casos, esta informação é divulgada por pessoas despreparadas, que acabam simplificando processos complexos com objetivo de ganhar mais seguidores ou dinheiro. Com o câncer, isto é pior. Pacientes emocionalmente fragilizados pelo diagnóstico e prognóstico da doença são mais facilmente atraídos por falsos milagres.

Na prescrição de exercícios, este panorama não é diferente. Rejeito muito a ideia de se estabelecer uma verdade absoluta capaz de solucionar todas as variáveis envolvidas na elaboração de um treinamento. Se as levarmos em consideração, jamais existirá um treino ou exercício ideal que induza respostas idênticas em todos os pacientes com câncer. Além disso, a ciência está em constante construção – basta pensar como era aplicação de exercícios físicos no paciente com câncer na década de 80: uma heresia. O que hoje é uma certeza, amanhã não é mais.

Mesmo contrariando os meus princípios, vou entregar o meu segredinho da receita do treinamento ideal, lá vai...

Saiba mais sobre esta receita em O treinamento ideal para o paciente com câncer que é o nosso texto de Maio da Coluna Paciente em Forma no Portal Oncoguia.

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Boa leitura e até a próxima...

Rodrigo Ferraz

21 abril, 2017

Mulheres com CA de mama se beneficiam do exercício durante e após o tratamento


Acaba ser publicada importante revisão sistemática (meta-análise) que avalia a eficácia do exercício físico (EF) realizado por mulheres com câncer (CA) de mama durante ou após o tratamento em relação à fadiga e funcionalidade. Foram selecionados para esta análise 33 estudos, totalizado 3418 mulheres com CA de mama não metastático – submetidas a procedimentos cirúrgicos seguidos por radioterapia e/ou quimioterapia.

Cabeçalho do artigo citado
Os resultados apontam que os grupos que treinaram durante ou após o tratamento as melhoras na fadiga e na funcionalidade foram significativas quando comparados aos grupos controles (sedentários).  Sendo que, o grupo mais beneficiado foi o pós-tratamento. Segundo os autores, esta diferença de efeito do EF entre estes grupos se dá pela característica da terapêutica anticâncer que, na maioria das vezes, contribui para o aumento acentuado da fadiga e redução da funcionalidade do paciente. O EF nesta fase tem a função de manter estes desfechos nos níveis pré-tratamento e, uma vez encerrada a terapêutica, o EF é capaz de modifica-los. (ver gráficos abaixo)

Gráfico Box-pot com o tamanho do efeito e comparação dos grupos experimental (EF) e controle (sedentário) durante e após o tratamento no desfecho funcionalidade. (Juvet et al. 2017) Clique no gráfico para ampliá-lo.

Em outra análise realizada, não foram encontradas diferenças significativas que favoreçam determinado tipo de intervenção (modalidade) de EF (treinamento de força, aeróbico e combinado). Entretanto, os resultados indicam que a combinação de exercício aeróbico e treinamento de força parece ser a mais benéfica em pacientes com CA de mama, tanto durante quanto no pós-tratamento. Neste caso, há a necessidade de mais estudos.

Gráfico Box-pot com o tamanho do efeito e comparação dos grupos experimental (EF) e controle (sedentário) durante e após o tratamento no desfecho fadiga. (Juvet et al. 2017). Clique no gráfico para ampliá-lo.

Novas revisões científicas sobre este assunto são publicadas quase que diariamente, com números de estudos e pacientes avaliados cada vez maiores, potencializando ainda mais a extrapolação de seus resultados. Assim como o estudo apresentado, a conclusão deles é unanime: pacientes com CA de mama se beneficiam da realização do EF de forma regular e sistematizada durante e após o tratamento.

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Referência do artigo:
  • Juvet, L. K., et al. "The effect of exercise on fatigue and physical functioning in breast cancer patients during and after treatment and at 6 months follow-up: A meta-analysis." The Breast 33 (2017): 166-177.

Até a próxima...

Rodrigo Ferraz

17 abril, 2017

Efeitos anticâncer do exercício no CA de mama - Parte II


Mulheres com câncer (CA) de mama que se exercitam durante e após o tratamento, além da melhora de suas qualidades de vida, justificada pela redução dos sintomas e dos efeitos colaterais do câncer e de seu tratamento, apresentam taxas de recidivas menores e consequente aumento de sobrevida.  Recentes evidências científicas sugerem que este efeito anticâncer do exercício físico se dá por dois fatores sistêmicos: crônicos (adaptação ao longo prazo), e agudos (de ação imediata).

Durante a realização do exercício, ocorrem importantes alterações de curta duração em vários componentes circulantes em nosso organismo, que em grandeza ultrapassam de longe as adaptações observadas com o treinamento em longo prazo - leia a primeira parte deste texto para saber mais sobre os efeitos crônicos. Essas alterações agudas afetam a biologia e a viabilidade de células tumorais no CA de mama.

Saiba quais são os fatores agudos em nosso texto Efeitos anticâncer do exercício no CA de mama - Parte II na coluna Paciente em Forma do Portal Oncoguia.

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Boa leitura e até a próxima...

Rodrigo Ferraz

20 março, 2017

Efeitos anticâncer do exercício no CA de mama - Parte I



Durante as últimas décadas, fomos expostos a inúmeros estudos que atestaram a prática de exercícios durante e após o tratamento antineoplásico quanto a sua segurança, capacidade do paciente em realizá-los e redução dos principais efeitos colaterais do câncer (CA) e de sua terapia. Como resultado, sabemos hoje que a melhora da qualidade de vida do paciente associa-se diretamente a melhora de suas aptidões físicas. 


Além destas evidências, mais recentemente, dados de estudos epidemiológicos sinalizaram que a realização de exercícios durante o tratamento também diminui os índices de recidivas e aumenta a sobrevida do paciente.  Segundo pesquisadores da Universidade de Copenhagen, este efeito anticâncer do exercício no CA de mama se dá pela regulação de fatores sistêmicos crônicos (adaptação ao treinamento de longo prazo) e agudos (após uma sessão de exercício). 

Saiba quais são estes fatores em nosso texto Efeitos anticâncer do exercício no CA de mama - Parte I na coluna Paciente em Forma do Portal Oncoguia.

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Boa leitura

Rodrigo Ferraz

09 março, 2017

Suplementação de proteína e exercício no câncer de mama.


Suplementação de blend de proteínas (whey protein + caseína) para sobreviventes de câncer de mama submetidas à treinamento de força por 12 semanas: ensaio clínico randomizado.

Interessante estudo está no prelo (em vias de ser publicado) na renomada revista Medicine & Science in Sports and Exercise, agora em março de 2017. Trata-se de um ensaio clínico realizado com 33 mulheres que completaram o tratamento para CA de mama, estágios I a III, há menos de 2 meses. O tratamento consistiu de cirurgia, quimio e/ou radioterapia, incluindo ainda inibidores de receptor de estrógeno em 25% dos casos.

Cabeçalho do artigo citado.

Essas mulheres foram alocadas em dois grupos: treinamento de força (TF) e treinamento de força + proteína (TF+PRO). O TF foi realizado em duas sessões semanais supervisionadas por profissional da área, que incluíam sessões de musculação com carga de 65 a 80% de 1 RM.  Além disso, o grupo TF+PRO recebeu um suplemento de 2 x 20g de blend protéico ao dia, uma delas pela manhã, antes do café da manhã ou dos treinos e outra 30 min antes de dormir. Foram avaliados, força, volume de treinamento, variação do consumo dietético, concentração de IGF-1 plasmático, adiponectina (para avaliar o metabolismo de gordura) e proteína C-reativa (marcador de inflamação).

Os resultados foram: TF foi capaz de aumentar em 1kg o ganho de massa magra e reduzir 1-2% de gordura corporal em ambos os grupos. A suplementação protéica não alterou ganho de peso nem consumo calórico total entre os grupos, embora tenha aumentado o consumo protéico em 17g por dia em relação ao grupo TF. Isso mostra que as pacientes recebendo proteína provavelmente compensaram essa quantidade reduzindo a ingestão dietética de proteína, mas ainda assim mantiveram um consumo maior que o controle. Esse consumo foi suficiente para aumentar o volume de treino no grupo PRO nos membros superiores e diminuir o delta de IGF-1 entre a condição basal e após 12 semanas (ver tabelas com resultados abaixo)

Comparação pré e pós intervenção dos componentes físicos e antropométricos. Clique na imagem para ampliá-la.

Embora não tenha obtido diferenças significativas em força e ganho de massa muscular, esse estudo foi pioneiro em mostrar que essa dose de suplementação protéica é bem aceita, segura (sem efeitos colaterais) e que não oferece ganho de gordura corporal para esses pacientes, e que os próximos estudos provavelmente deverão ter aconselhamento dietético para que os participantes terminem de fato consumindo os 40g a mais de proteína previstos pela suplementação, o que também pode explicar a falta de resultados mais significativos.

Comparação pré e pós intervenção dos marcadores sanguíneos. Clique na imagem para ampliá-la.

Vamos aguardar os próximos estudos!

Referência do artigo citado:

  • Madzima, Takudzwa A., et al. "Effects of Resistance Training and Protein Supplementation in Breast Cancer Survivors." Medicine and science in sports and exercise (2017).
Dra. Patrícia Campos-Ferraz

17 fevereiro, 2017

Exercício físico aumenta a sobrevida do paciente com câncer.


O estilo de vida é um dos principais fatores que influenciam o surgimento e a cura do câncer (CA), principalmente quando o assunto é atividade física. Vários estudos indicam que pacientes fisicamente ativos durante o tratamento possuem taxas de recidivas menores e, consequentemente, maiores sobrevidas.

Em um dos estudos mais comentados no ano passado, pesquisadores dinamarqueses acompanharam durante 12 anos os hábitos de 959 mulheres sobreviventes de CA de mama a partir de seu diagnóstico – dois terços delas com CA em estágios I e II, metade mastectomizadas e 42% com, ao menos, um linfonodo removido.

Cabeçalho do artigo citado.

O resultado mostrou que as pacientes que se exercitaram reduziram em 44% seus riscos de morte quando comparadas as sedentárias. Principalmente nas que realizaram exercícios de moderado a alta intensidade.  Entretanto, para aquelas que apenas se mantiveram fisicamente ativas realizando tarefas do cotidiano (limpeza, jardinagem, arrumação da casa etc.) não foram encontradas reduções significativas no risco. Para justificar estes achados, os autores explicam que as tarefas realizadas no cotidiano são menos intensas e mais intermitentes e que para ocorrer um efeito oncoprotetor, o estímulo físico tem que ser mais intenso e continuo.

Tabela com os valores da quantidade de atividade física realizada e número de mortes. Apenas o grupo exercício (exercise) na coluna de modelo ajustado na comparação entre alta e baixa intensidade  (Adjusted model, high versus low PA) obteve resultado significativo em altas intensidades (no caso, alta intensidade também englobou a moderada) - indicado pelo asterisco. (clique na imagem para ampliá-la)

Portanto, a realização sistematizada e regular de exercícios físicos – com controle do esforço e tempo adaptados a condição física do paciente - apresenta-se como uma ótima estratégia para aumentar a sobrevida do paciente com CA de mama.

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Referencia do artigo citado:
  • Ammitzbøll, Gunn, et al. "Physical activity and survival in breast cancer." European Journal of Cancer 66 (2016): 67-74.


Até a próxima...
Rodrigo Ferraz

15 dezembro, 2016

Existe uma modalidade esportiva ideal para o paciente com câncer?



“Qual modalidade de exercício físico (corrida, musculação, natação, pilates, por exemplo) é a mais indicada para pacientes com câncer? Esta, talvez, seja uma das principais dúvidas que os profissionais da área de saúde e seus pacientes possuem na escolha de um programa de exercícios físicos. A resposta é simples, porém, para entendê-la, é necessária a análise de alguns conceitos, fatores e com que a ciência atualmente nos municia.”

Leia o nosso texto de Dezembro da Coluna Paciente em Forma no Portal Oncoguia e saiba mais sobre como deve ser o processo que envolve a escolha da atividade física para o paciente com câncer.

Clique no link abaixo para ler o texto:

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Boa Leitura.

Até a próxima...

Rodrigo Ferraz

07 dezembro, 2016

Exercício físico na caquexia do câncer


A caquexia (do grego kakós [mau] e hexis [condição]) do câncer (CA) é uma síndrome multifatorial caracterizada por uma perda contínua de massa muscular, com ou sem redução de massa gorda. Sequelas fisiológicas incluem anorexia, fadiga, anemia, edema e alterações do sabor, levando a diminuição da função física, aumento da toxicidade relacionada ao tratamento e mau prognóstico.  Sua prevalência varia de acordo com o tipo de CA, com as taxas mais altas para CA de pulmão e trato gastrointestinal superior, onde mais da metade dos pacientes são afetados. A variação no desenvolvimento da caquexia na CA depende também de características individuais, com polimorfismos genéticos influenciando marcas desta síndrome, como por exemplo, a inflamação. Lamentavelmente, a condição caquética ocorre na maioria dos pacientes com CA antes de sua morte - a caquexia sozinha é responsável por aproximadamente 25% de todas as mortes de pacientes oncológicos (ver imagem abaixo ilustrando a fisiopatologia e tratamentos específicos da caquexia do CA).

Fisiopatologia da caquexia do câncer (Bruggeman et al. 2016). Clique na imagem para ampliá-la.

O objetivo na gestão da caquexia do CA é abrandar o declínio da função física a partir de melhorias na composição corporal. É indicada, então, uma intervenção multimodal que tratará dos distúrbios metabólicos e funcionais do paciente. Neste sentido, são recomendadas as terapias nutricionais, farmacológicas e de exercício físico (EF).

Cabeçalho do artigo de base dos parágrafos acima.

O EF pode atenuar os efeitos da caquexia através da modulação do metabolismo muscular, da sensibilidade à insulina e dos níveis de inflamação. Já em 2012, o pesquisador brasileiro Cláudio Bataglini, através de dados obtidos em populações com CA (ver nossa publicação passada - Aumento de força muscular no câncer), postulou a possível influência do EF num cenário de caquexia do CA sobre a síntese proteica no músculo, através de uma regulação positiva de citocinas anti-inflamatórias e aceleração de eventos de mioplasticidade (síntese proteica), criando assim um equilíbrio entre catabolismo e anabolismo, dado que o CA e alguns de seus tratamentos estimulam a expressão de citocinas pró-inflamatórias - muitas são anorexígenas  e/ou proteolíticas. Segundo este modelo, com o balanço proteico estabilizado, o EF poderia ajudar os pacientes com ou em risco de caquexia do CA na manutenção de sua independência (ver gráfico do modelo postulado abaixo).

Possíveis mecanismos anti caquexia promovidos pelo exercício físico (Battaglini et al. 2012). Clique na imagem para ampliá-la.

Embora exista uma robusta base de evidências para intervenções nutricionais e de drogas no manejo da caquexia do CA, estudos de EF em CA avançado são poucos, impossibilitando maiores conclusões. Apesar da forte justificativa para o uso do EF, não há dados atuais para elucidar os efeitos específicos.

Cabeçalho do artigo citado acima.

Em recente revisão, realizada por uma equipe de brasileiros e ingleses, não foram encontradas provas suficientes para determinar a segurança e a eficácia do EF nesta população. Isso não significa que o EF não pode ser útil, apenas retrata que as pesquisas ainda não foram capazes de responder a esta pergunta. Futuros estudos precisam delimitar melhor a amostra segundo os critérios de diagnósticos internacionais para a classificação da caquexia do CA. Isto aumentaria a interpretação e generalização dos achados para o cenário da caquexia.

Cabeçalho do artigo citado acima.

Quer saber mais sobre a caquexia do câncer. Leia nossas publicações:

Síntese proteica na caquexia neoplásica. O que muda após uma refeição?

Suplementação de aminoácidos e caquexia do câncer.


Até a próxima...

Rodrigo Ferraz

Referências:
  • Bruggeman, Andrew R., et al. "Cancer cachexia: Beyond weight loss." Journal of Oncology Practice 12.11 (2016): 1163-1171.
  • Battaglini, Claudio L., Anthony C. Hackney, and Matthew L. Goodwin. "Cancer cachexia: muscle physiology and exercise training." Cancers 4.4 (2012): 1247-1251.
  • Grande, Antonio Jose, Valter Silva, and Matthew Maddocks. "Exercise for cancer cachexia in adults: Executive summary of a Cochrane Collaboration systematic review." Journal of cachexia, sarcopenia and muscle 6.3 (2015): 208-211.


30 novembro, 2016

Aumento de força muscular no câncer



A melhora das capacidades físicas, promovidas a partir da realização de um programa de exercícios físicos, possui forte associação com a redução das sequelas do câncer e de seu tratamento. A primeira destas capacidades investigadas foi a aptidão cardiorrespiratória. No pioneiro estudo realizado no fim da década de 80 pela pesquisadora Mary MacVicar, o aumento no VO2 max de pacientes em tratamento anticâncer, após treinamento aeróbico, atenuou os sintomas de náuseas e fadiga. 

Cabeçalho e resumo do artigo citado acima.

Mais recentemente, com resultados promissores, a força muscular também passou a ser amplamente investigada. Entretanto, há muitos questionamentos se é possível aumentar a força desta população, principalmente se o paciente estiver em tratamento.

Para tentar responde-los, pesquisadores Noruegueses realizaram revisão de literatura que se concentrou em analisar a resposta da força muscular dos pacientes em tratamento após intervenção de protocolos de exercícios físicos -  independente da modalidade realizada e sem olhar para desfechos como os efeitos colaterais do tratamento, por exemplo.  Isto é, se a força é uma capacidade física treinável nestas condições. Após criteriosa busca, selecionaram 16 estudos - a maioria com câncer de mama, próstata e hematológico – e três modalidades: aeróbico (caminhada, por exemplo), treinamento de força (musculação) e combinado (aeróbico + musculação).

Cabeçalho do artigo citado acima.

Os resultados foram contundentes, ambas as modalidades foram capazes de melhorar substancialmente a força muscular dos pacientes em tratamento, quando comparados ao grupo sedentário em tratamento. O treinamento de força foi o mais efetivo em promover tais ganhos. Outro dado analisado foi o ganho de massa muscular, este também, de forma mais modesta, seguiu tendência de aumento após a realização de protocolos de exercícios físicos, enquanto que, neste mesmo período, ocorreu redução de massa magra no grupo sedentário. Estes dados indicam que o paciente oncológico responde positivamente ao estímulo de exercício físico. (ver gráfico abaixo com a comparação dos efeitos destas modalidades na força muscular)

Gráfico com a comparação dos efeitos de modalidades (combinado; aeróbico; treinamento de força) na força muscular de pacientes durante o tratamento anticâncer. (Stene et al. 2013) clique na imagem para ampliá-la

Os artigos analisados apresentaram protocolos de exercícios com volumes e intensidades muito diferentes. Logo, não foi possível concluir sobre dosagens ideais.

De forma direta, os aumentos de força e massa muscular impactam na funcionalidade do paciente – melhora de qualidade de vida. Entretanto, a caquexia oncológica, mais um desdobramento da doença, que acomete, principalmente, pacientes em quadros mais avançados, pode ter sua dinâmica alterada com os ganhos apresentados. 

Dando continuidade ao tema, nossa próxima publicação abordará os efeitos do exercício físico na caquexia oncológica. 

Até lá...
Rodrigo Ferraz

Artigos citados:
MacVICAR, MARY G., MARYL L. WINNINGHAM, and JENNIE L. NICKEL. "Effects of aerobic interval training on cancer patients' functional capacity." Nursing research 38.6 (1989): 348-353.

Stene, G. B., et al. "Effect of physical exercise on muscle mass and strength in cancer patients during treatment—a systematic review." Critical reviews in oncology/hematology 88.3 (2013): 573-593.


26 novembro, 2016

Exercício físico no câncer de próstata


“Um dos principais objetivos das terapias complementares em homens com câncer de próstata é a restituição da qualidade de vida e redução dos níveis de fadiga. Neste sentido, a prática de exercícios físicos tem sido considerada opção primária na gestão desta patologia, revertendo ou neutralizando a maioria destas sequelas com mínimos efeitos colaterais.”

Leia o texto deste mês da nossa coluna Paciente em Forma (Portal Oncoguia) e saiba mais sobre as mais recentes evidências científicas da prática de exercícios físicos em pacientes com câncer de próstata.

Clique no link abaixo e leia o texto


Boa leitura...
Rodrigo Ferraz